A Globo transformou o Você Decide em um tribunal de opiniões
A volta do Você Decide deveria ter sido uma celebração da televisão brasileira. Afinal, estamos falando de um programa que marcou época, mobilizou famílias inteiras e colocou o telespectador no centro da discussão. Porém, o que foi apresentado no Domingão com Huck está muito longe do formato que fez história.
O antigo Você Decide provocava reflexão. O novo parece buscar validação. Antes, o público era convidado a pensar; agora, muitas vezes, parece ser induzido a concordar.
O que mais chamou a atenção não foram as histórias apresentadas, mas a presença constante de convidados que transformaram um espaço de debate em uma espécie de tribunal de opiniões. Em vez de estimular diferentes pontos de vista, muitos comentários davam a impressão de que já existia uma resposta considerada correta antes mesmo da votação acontecer.
A consequência foi visível. Quando algumas pessoas da plateia eram chamadas a opinar, a espontaneidade parecia dar lugar ao constrangimento. Em um ambiente onde o medo de ser julgado supera a liberdade de expressão, o debate deixa de existir e passa a ser apenas encenação.
O problema é maior do que um programa de televisão. Ele reflete uma tendência preocupante da comunicação atual: a substituição da conversa pelo julgamento, da troca de ideias pela patrulha de pensamento e da divergência pelo constrangimento público. O que deveria ser entretenimento acabou reproduzindo exatamente o ambiente tóxico que tantas pessoas criticam nas redes sociais.
A Globo parece não compreender que o sucesso do Você Decide não estava apenas na votação final. O que conquistava o público era a sensação de que todas as opiniões tinham espaço. O telespectador não queria ser doutrinado, pressionado ou enquadrado. Queria apenas participar.
Talvez o maior erro dessa nova versão tenha sido esquecer uma lição básica da comunicação: quando o público sente que está sendo conduzido, ele deixa de se envolver. E quando deixa de se envolver, muda de canal.
O Brasil não parava para assistir ao Você Decide porque alguém dizia o que era certo ou errado. O Brasil assistia porque tinha o direito de decidir por si mesmo. E essa parece ser justamente a essência que ficou pelo caminho.

